O-RADS: A Classificação Que 95% dos Laudos Pélvicos Ignoram
Introdução
Apenas 5% dos laudos de ultrassonografia pélvica utilizam o O-RADS, segundo estudo publicado pelo Canadian Association of Radiologists Journal em 2025. Enquanto BI-RADS e TI-RADS já são rotina em mama e tireoide, o ovário segue majoritariamente descrito de forma subjetiva, sem padronização de risco de malignidade. Essa lacuna traz consequências diretas para pacientes, médicos e instituições.
Destaque: O O-RADS ainda é exceção na prática clínica, ao contrário da ampla adoção de BI-RADS e TI-RADS.
O Impacto da Ausência de O-RADS nos Laudos
Cistos ovarianos são o achado mais comum na ultrassonografia pélvica feminina. Uma pequena parcela é maligna. Sem estratificação padronizada do risco, a decisão clínica recai para o médico solicitante, que pode não ter experiência em imagem ovariana. Isso resulta em encaminhamentos desnecessários ou, pior, em atrasos no diagnóstico de lesões malignas. Em situações médico-legais, a ausência de categorização pode ser questionada pericialmente, aumentando o risco de processos por erro ou atraso diagnóstico.
Alerta médico-legal: Não categorizar massas anexiais com O-RADS pode expor o radiologista a riscos legais significativos.
O Que o O-RADS Resolve
O Ovarian-Adnexal Reporting and Data System (O-RADS), lançado pelo American College of Radiology em 2020 e atualizado em 2022, padroniza a descrição, categoriza o risco de malignidade e orienta a conduta para cada achado. São seis categorias baseadas em critérios morfológicos claros:
| Categoria | Significado | Risco de malignidade | Conduta |
|---|---|---|---|
| O-RADS 0 | Avaliação incompleta | — | Complementar exame |
| O-RADS 1 | Ovário normal (pré-menopausa) | Fisiológico | Nenhuma |
| O-RADS 2 | Quase certamente benigno | < 1% | Seguimento ou nenhum |
| O-RADS 3 | Baixo risco | 1–10% | Seguimento ou RM |
| O-RADS 4 | Risco intermediário | 10–50% | Referência oncológica |
| O-RADS 5 | Alto risco | > 50% | Referência oncológica |
Dica prática: Utilize o léxico IOTA na descrição das lesões anexiais: detalhes como parede interna, septações, componente sólido e vascularização são essenciais para correta categorização no O-RADS.
O O-RADS sistematiza o uso de descritores objetivos, tornando o laudo mais confiável e orientando corretamente a conduta clínica.
Por Que a Adoção do O-RADS Ainda É Baixa
Três fatores explicam a baixa adoção: desconhecimento das atualizações recentes, percepção de complexidade e falta de cobrança institucional. No entanto, o algoritmo O-RADS v2022 é intuitivo, baseado em fluxogramas sequenciais, e mais simples que sistemas como o TI-RADS. Instituições que implementaram treinamento e templates estruturados elevaram a adesão de 5% para 77% em pouco mais de um ano, mostrando que o gargalo é processual, não técnico.
Destaque: O O-RADS é mais simples que outros sistemas e pode ser aprendido rapidamente por ultrassonografistas já familiarizados com TI-RADS ou BI-RADS.
O-RADS 3: Onde a Padronização Faz Mais Diferença
A categoria O-RADS 3 (risco de 1–10%) exige descrição precisa. Inclui cistos com septação espessa (≥3 mm), cistos com componente sólido sem vascularização e lesões multiloculares menores que 10 cm. A conduta recomendada é seguimento ultrassonográfico em 8 a 12 semanas ou ressonância magnética. Sem classificação formal, a responsabilidade é transferida para o clínico de maneira genérica, enquanto um laudo categorizado orienta de forma objetiva e protege ambas as partes.
Ponto-chave: A correta classificação das lesões O-RADS 3 evita procedimentos desnecessários e atrasos no diagnóstico, protegendo paciente e médico.
O-RADS v2022: O Que Mudou
A atualização de 2022 trouxe avanços relevantes:
- O sistema passou a ser aplicável a todos os exames pélvicos, não só aos focados em massas.
- Refinamento dos critérios para O-RADS 2 e 3, reduzindo falsos positivos e melhorando a discriminação entre cistos hemorrágicos e lesões sólido-císticas.
- As recomendações de conduta ficaram mais objetivas, alinhadas com sociedades ginecológicas.
Dica: O O-RADS v2022 eliminou ambiguidades, tornando as recomendações mais diretas e facilitando a adoção sistemática.
Como Implementar o O-RADS no Seu Laudo Amanhã
- Sempre classifique lesões anexiais identificadas, mesmo as claramente benignas (O-RADS 2).
- Utilize o léxico IOTA: detalhe parede interna, septações, componente sólido, vascularização e tamanho.
- Na conclusão, inclua: “Classificação O-RADS [X]. Risco estimado de malignidade: [faixa]. Conduta sugerida: [recomendação].”
- Use templates com descritores obrigatórios para padronizar e agilizar o processo.
- Consulte o algoritmo do ACR (acr.org/O-RADS) até internalizar o fluxo.
Ponto-chave: Padronizar o uso do O-RADS protege o paciente, facilita decisões clínicas e reduz a exposição legal do radiologista.
Conclusão
A padronização do laudo ovariano com O-RADS já deveria ser o padrão, como ocorre com BI-RADS e TI-RADS. A janela para adoção voluntária ainda está aberta, mas em breve será uma exigência jurídica. Ferramentas como o LaudoUSG já permitem a configuração automática dos descritores IOTA e O-RADS, tornando a rotina mais segura, eficiente e juridicamente protegida.
Referências
1. Andreotti RF et al. O-RADS US Risk Stratification and Management System. Radiology, 2020.
2. Reinhold C et al. O-RADS US v2022: An Update. Radiology, 2023.
3. Bouchard-Fortier G et al. Implementation of O-RADS Ultrasound Reporting System: A Quality Improvement Initiative. Canadian Association of Radiologists Journal, 2025.
4. Timmerman D et al. Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of adnexal tumors (IOTA consensus). Ultrasound Obstet Gynecol, 2000.
5. JAMA Network Open. Diagnostic Performance of O-RADS Ultrasound Risk Score in Women in the United States, 2022.
